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Hortas urbanas: como comunidades estão transformando terrenos abandonados em espaços de vida

Em várias cidades brasileiras, grupos de moradores estão ocupando terrenos ociosos para criar hortas coletivas. O resultado vai além da produção de alimentos.
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Ilustração: Raízes Comuns

No bairro do Glicério, em São Paulo, um terreno que ficou abandonado por quase uma década virou, nos últimos dois anos, uma horta comunitária que abastece 40 famílias da região. A transformação não foi simples — exigiu negociação com o proprietário, mobilização de moradores, trabalho voluntário e uma dose generosa de paciência.

Mas o resultado vai muito além dos alimentos produzidos. A horta virou ponto de encontro, espaço de educação para crianças, lugar de troca de saberes entre moradores mais velhos e jovens. "Aqui a gente aprende a plantar, mas aprende também a conviver", diz Joana, 52 anos, uma das fundadoras do projeto.

Um movimento que cresce

A horta do Glicério não é caso isolado. Segundo o Instituto Brasileiro de Hortas Urbanas, o número de projetos de agricultura urbana no Brasil cresceu 45% entre 2020 e 2025. O crescimento foi acelerado pela pandemia, que criou tanto a necessidade (insegurança alimentar) quanto a oportunidade (pessoas em casa com mais tempo).

As hortas urbanas existem em formatos muito diferentes: hortas comunitárias em terrenos públicos ou privados cedidos, hortas em escolas e hospitais, hortas verticais em prédios, hortas em telhados. O que une todas elas é a ideia de que a produção de alimentos pode acontecer dentro da cidade — e que esse processo tem valor além do econômico.

Os desafios reais

Nem tudo é idílico. Projetos de hortas urbanas enfrentam desafios concretos: insegurança jurídica sobre o uso de terrenos, dificuldade de manutenção quando o entusiasmo inicial arrefece, falta de apoio técnico, problemas com vandalismo e furto.

A sustentabilidade de longo prazo é o maior desafio. Muitos projetos começam com energia e engajamento altos e vão perdendo força ao longo do tempo. Os que sobrevivem tendem a ter uma estrutura organizacional mais sólida — uma associação formal, divisão clara de responsabilidades, alguma fonte de renda que permita cobrir custos básicos.

O que as cidades podem fazer

Algumas prefeituras estão começando a reconhecer o valor das hortas urbanas e criar políticas de apoio: cessão de terrenos públicos, assistência técnica, isenção de taxas para projetos comunitários. São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte têm programas específicos. Mas a maioria das cidades brasileiras ainda não tem uma política clara sobre o tema.

Indicadores: 2022–2026 202245%202358%202472%202565%202688%
Vera Magalhães
Vera Magalhães
Editora comunitária — Raízes Comuns

Jornalista especializado em comunidade. Cobre temas relevantes para o Brasil contemporâneo com rigor e clareza.